Nos últimos anos, em nosso contato com o cinema contemporâneo mundial, vimos uma cinematografia absolutamente desconhecida para nós despontar nos mais importantes festivais internacionais e nas mais diversas publicações críticas: a cinematografia filipina. Apesar de nomes como Lav Diaz, Brillante Mendoza ou Raya Martin se tornarem cada vez mais familiares, seus filmes permaneciam uma grande incógnita, pois quase nunca chegavam ao Brasil. Essa curiosidade nos levou a idealizar a mostra Descobrindo o Cinema Filipino.

Quanto mais nos aproximávamos das obras desses e de outros realizadores, mais éramos instigados a mergulhar nesse processo. De um lado, víamos que o cinema contemporâneo do país tinha uma força e uma autenticidade únicas; de outro, que a história desse cinema, até então também desconhecida, guardava uma série de filmes e ideias muito estimulantes.

Nossa pesquisa foi intensificada pela aparição, enfim, de alguns filmes filipinos em festivais brasileiros. Essas poucas exibições nos levaram, ainda mais, a querer ver os filmes do país em conjunto, sobretudo por três razões: 1. Pela oportunidade de traçar relações e diferenças entre cineastas que possuem uma série de afinidades, mas também revelam propostas estéticas extremamente pessoais; 2. Por perceber que diversos dos filmes que mais nos interessavam (como Um Pequeno Filme Sobre o Índio Nacional ou Evolução de uma Família Filipina) não seriam exibidos por aqui tão cedo; 3. Por trazer ao Brasil alguns dos filmes mais importantes da história das Filipinas, estabelecendo pontes entre os novos cineastas e seu passado cinematográfico.

Esse passado, inclusive, que começou há mais de 100 anos, teve nos anos 20 e 30 a formação de sua indústria, facilitada pela ajuda financeira e técnica dos Estados Unidos. Na década de 50, o crescimento dessa indústria levou as Filipinas à sua chamada Primeira Era de Ouro, na qual foram revelados cineastas como Gerardo de Leon, Cesar Romero e Manuel Conde, que obtiveram certo reconhecimento internacional.

Na década de 70 até o início de 80, o Cinema Filipino viveu uma Segunda Era de Ouro, com cineastas como Lino Brocka, Ishmael Bernal, Mike de Leon e Kidlat Tahimik, que, com seu primeiro filme, Pesadelo Perfumado, ganhou o Prêmio Internacional da Crítica no Festival de Berlim de 1977. Esse prêmio marcou, pela primeira vez, a separação entre o cinema comercial e o cinema independente filipino. Esta geração de cineastas é ainda mais importante por seu fator político: em pleno regime ditatorial de Ferdinand Marcos (que durou de 1971 até 1987), os cineastas apresentaram uma realidade crua do país e de suas mazelas: a pobreza, o domínio estrangeiro, a condição inferior da mulher, a violência, entre outras.

Entretanto, de meados da década de 80 até o início dos anos 2000 o cinema filipino, assolado pelas produções Hollywoodianas, viveu um período de decadência, mantendo-se cada vez menos forte em sua indústria e sendo esquecido fora do país. Para remediar essa situação, as próprias produções filipinas passaram a se assemelhar, cada vez mais, às suas matrizes americanas. Nesse ingrato panorama, dois curta-metragistas independentes mantiveram o espírito combativo de seus antecessores: Raymond Red, e seus filmes experimentais; Roxlee, e suas animações.

Com o advento do cinema digital e de suas possibilidades, uma nova geração de cineastas independentes surgiu, tomando os festivais de surpresa e angariando com seus filmes uma reputação internacional nunca antes atingida no país, apesar do sucesso e da influência dos antecessores Brocka, Bernal, de Leon e Tahimik.

Deste vasto grupo, formado majoritariamente por jovens, alguns vêm se destacando: Raya Martin, de apenas 25 anos, que já roda o mundo com suas crônicas da vida e da história filipina; Brillante Mendoza, que parte da influência de Brocka para retratar com vigor a condição social do país; Lav Diaz, que com épicos de longuíssima duração escreve a história atual filipina; John Torres, com seus filmes-ensaio extremamente pessoais; Adolfo Alix Jr, com seu ritmo mais contemplativo e poético de entender o cotidiano da nação; e Khavn De La Cruz, cujos filmes demoram menos de 10 dias para serem feitos e retratam a urgência de mudanças onde vive.

Dentre uma seleção de 21 longas-metragens exibidos na mostra, que contempla tantos os novos cineastas quanto os nomes que os influenciaram, todos esses realizadores estarão presentes, com pelo menos dois filmes cada um. Entretanto, vale ressaltar que a produção filipina não se restringe aqui, e poderíamos ainda destacar diversos outros nomes de interesse, como Sherad Anthony Sanchez, Mes de Guzman e Auraeus Solito, cada um com seu estilo particular. Essa variedade de perfis e estilos mostra não apenas a força de tal cinema, mas a permanente ampliação de seu escopo.

Juntamente ao surgimento de novos realizadores, diversos críticos filipinos, amparados pelas possibilidades advindas da Internet, vêm se destacando em blogs e sites, escrevendo sobre a história do cinema no país enquanto ela acontece (ou retratando seu passado para o resto do mundo). Pensando nisso, convidamos dois dos críticos mais proeminentes para escreverem sobre os filmes presentes na mostra: Noel Vera, que traça um panorama dos filmes antigos e influentes, e Francis Joseph Cruz, que analisa as obras recentes. Traduzimos também um dos mais belos textos do falecido crítico Alexis Tioseco, nome dos mais relevantes nesse “novo cinema filipino”, mesmo que a partir apenas de sua escrita. Tioseco, com sua defesa obstinada do cinema independente no país, ajudou a divulgá-lo para o resto do mundo, sempre com uma postura crítica. A leitura de seus artigos foi, e ainda é, um de nossos maiores incentivos e a certeza de nossa razão em promover esta mostra no Brasil.

Assim como lamenta Francis Cruz em seu artigo, tivemos a tristeza de constatar que grande parte dos filmes antigos e influentes já não existe mais em seus formatos originais ou, quando existe, que sobrevivem em condições precárias de preservação. Após uma intensa pesquisa, conseguimos localizar cópias raras fora das Filipinas, em países como Inglaterra ou Austrália. Por conta desse estado geral, alguns dos maiores clássicos serão exibidos em condições não ideais. Ainda assim, a enorme força desses filmes e a importância de exibi-los pela primeira vez no Brasil justificam sem ressalvas sua presença na mostra. Os novos filmes, por sua vez, serão todos apresentados em seu formato original de exibição, seja ele digital (fruto da intensa produção independente) ou 35mm.

Por fim, consideramos que o cinema filipino é, em geral, um cinema que tem muito a dizer também sobre nossa realidade, e sobre nossa própria produção. Seus filmes retratam um mundo de diferenças sociais e procuram formas de investigar e transformar esta situação. O modo de feitura independente com que trabalham não coloca o suporte ou a facilidade de se filmar à frente de seu ímpeto político-estético; cada um, de sua forma pessoal (seja através da reflexão histórica, da angústia poética ou do retrato urgente de um estado social), problematiza o espaço em que vive. Bom descobrimento.

Leonardo Levis e Raphael Mesquita

Curadores